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AS ARTES MARCIAIS NA ATUALIDADE: O COMBATE INTERIOR


- OS FUNDAMENTOS DO COMBATE-EDUCATIVO - *Rogério Tadeu Poian

  As artes marciais são sistemas de praticas e tradições para treinamento de combate sem o uso de armas de fogo ou outros dispositivos modernos. Sua origem confunde-se com o desenvolvimento da civilização quando, logo após o desenvolvimento da tecnologia agrícola, alguns seres humanos começaram a acumular riqueza e poder, desencadeando o surgimento de cobiça, inveja, ganância e a agressão. A necessidade abriu espaço para a profissionalização da proteção e defesa pessoal. Com a difusão das armas de fogo, as artes marciais perderam a sua utilidade prática tradicional. Em séculos passados quem sabia artes marciais tinha segurança, sabia se defender e protegia seus familiares ou sua comunidade em caso de necessidade. As antigas artes de combate constituem um legado histórico e cultural, tendo também se originado no campo de batalhas em períodos específicos de conturbações sociais e posteriormente formalizadas como artes marciais adaptadas ao seu tempo. Muitos mestres dedicaram-se a criar uma arte marcial que fosse ao encontro das necessidades do chamado mundo moderno, mas que ao mesmo tempo não fosse anacrônica. Um dos exemplos mais importantes dessas modificações das artes marciais são os ensinamentos e princípios do mestre criador do Aikido Morihei Ueshiba que conclui em seu tratado que o verdadeiro espírito e caminho das artes marciais não se encontra numa atmosfera competitiva e combativa, em que a força bruta domina e o objetivo maior é chegar à vitória a qualquer preço. Para o mestre Morihei Ueshiba o essencial é a busca daperfeição como ser humano, física e mentalmente, através de treinamento cumulativo com espíritos gentis. Quando esta qualidade existe ela está além de qualquer cultura ou época específica. Atualmente, pessoas de todo o mundo estudam artes marciais por diferentes motivos como condicionamento físico, defesa pessoal, coordenação motora, lazer, desenvolvimento de disciplina, participação de um grupo social e estruturação de uma personalidade sadia, pois a pratica possibilita a liberação da tensão que harmoniza o indivíduo focalizando-o de forma positiva. Na arte marcial o impulso agressivo ou agressividade pode ser utilizado e direcionado de maneira saudável. O termo arte marcial é um termo ocidental e latino referente às artes de guerra e luta. Este termo surgiu em relação ao Deus da Guerra Greco-Romano Marte. Hoje em dia o termo artes marciais é usado para todos os sistemas de combate de origem oriental e ocidental, com ou sem o uso de armas tradicionais. No oriente existem outros termos mais adequados para a definição destas artes como Wushu na China e Budo no Japão que significam respectivamente Artes da Guerra e Caminho das Artes Marciais. Temos também no Japão o Bushido, cujo termo significa literalmente Caminho do Guerreiro. No ocidente as artes marciais estão vinculadas unicamente a sistemas de luta e defesa pessoal ao contrário do oriente que possui um sistema filosófico fundamentado culturalmente em crenças e religiões favoráveis ao desenvolvimento humano que preparam o praticante físico e espiritualmente. Em relação aos estilos ocidentais de luta podemos citar o Savate, Kickboxing, Boxe, Luta livre, Capoeira, Esgrima e outros mais recentes criados da mescla com sistemas de lutas orientais. Como vemos o ocidente apresenta também um bom número de manifestações marciais. Porém, diferente dos orientais, nós ocidentais, não tivemos uma valorização sócio-histórico-cultural da nossa marcialidade, deixando-a desconhecida para nosso povo. Um grande exemplo deste fato é a capoeira no Brasil que por muito tempo foi considerada subversiva, sua pratica era proibida e duramente reprimida por nossas ignorantes, incompetentes e irresponsáveis classes dominantes. Por outro lado, o oriente sempre teve as artes marciais relacionadas e integradas à cultura, à filosofia e, principalmente, à religiosidade, colocando-as como destaque sócio-cultural. No ocidente a religião era o primeiro ponto que criava uma barreira para as artes marciais, pois afirmava que o corpo deveria ser desvalorizado e somente o espírito valorizado criando, desta forma, uma dicotomia sem precedente na história. E não esclarecendo que a arte marcial bem administrada e bem conduzida espiritualmente serviria para a evolução da humanidade. Nossos ocidentais e superficiais pensadores, filósofos e teólogos afirmavam que os combates físicos somente deixavam o espírito pobre. Friedrich Nietzsche, filósofo alemão, crítico da cultura ocidental e suas religiões, foi um dos poucos que reconheceu a importância do corpo. Deixando bem claro essa posição em sua célebre e contundente frase: “O cristianismo foi, até o momento, a maior desgraça da humanidade, por ter desprezado o corpo”. Do oriente chegam-nos filosofias que veiculam um humanismo vivo e atuante que procura ajudar cada ser humano a aperfeiçoar-se como indivíduo e como ser social. Através desta evolução individual e social estas tradições visam a elevação da humanidade como um todo. Neste ponto entra uma das funções principais do Combate Educativo que é de resgate de valores humanos adormecidos ou esquecidos. Para o Combate Educativo as artes marciais apenas ganham sentido e afirmam a sua dimensão pedagógica e psicológica se munidas de uma ética aplicada ao desenvolvimento nos praticantes de uma visão humanista do mundo. Em artes marciais é preciso compreender que não estamos lidando apenas com movimentos, golpes, técnicas de combate, pensamentos ou considerações intelectuais, mas com os princípios sobre os quais atuamos e praticamos. Sabemos da eficiência e importância de cada arte marcial em todos os aspectos e contextos. Desse modo, jamais devemos objetivar exaltar uma prática marcial em relação às outras. Cabe ao indivíduo julgar por si mesmo àquela que ele ou ela mais se identifica no momento da escolha da prática de alguma arte marcial. Independente da modalidade praticada é extremamente importante perceber que existem duas formas de treinamento: o treinamento da mente, do pensamento, da percepção e o treinamento do corpo. Estas formas de treinamento: a corporal e a mental, devem ser apreciadas em seus aspectos fundamentais, porque na verdade elas são indissociáveis, ou seja, é impossível trabalhar o corpo sem o uso da mente e, evidentemente não se pode trabalhar a mente, a emoção, a razão sem o uso do corpo. Portanto, o praticante de arte marcial sob a orientação do Combate-Educativo terá a oportunidade de rever suas concepções e conceitos sobre o corpo, a psique e a natureza humana e ao mesmo tempo não devendo se preocupar o quanto é hábil e o quanto é forte e capaz, o mais importante é que os fundamentos e princípios sejam cultivados, perseguidos e que se tenha uma boa compreensão, desde o início da pratica, do caminho que se deve seguir. Sobre o caminho, os nomes de muitas artes marciais orientais carregam em si o ideograma “do”, que significa “caminho”, como exemplos temos: Aikido, Judo, Kendo, Karate-do, Tae Know do. O sentido e significado do termo caminho nestas artes específicas esta relacionado ao caminho ético, moral, do auto-conhecimento e do desenvolvimento humano. Em artes marciais, principalmente as orientais, a transformação autêntica do indivíduo somente pode acontecer fora da mente lógica e dedutiva. Seu apelo é mais intuitivo do que racional, e um de seus postulados básicos é o de que uma pessoa, usando apenas a razão, pode ficar sem rumo. Já a intuição baseada na sinceridade, na emoção e na orientação moral nos leva de volta às raízes, à verdade das coisas, ao fundamental e ao sentido da vida. O treinamento corporal e mental sistemático em artes marciais pressupõe, antes de tudo, a solução de conflitos humanos que somente trabalhando com nossas emoções e sentimentos conseguiremos despertar para uma existência mais digna, mais humana e solidária refletindo harmonia com a natureza, o meio ambiente e todo o universo. Atualmente nas artes marciais o combate é uma situação artificial onde nos defrontamos com um “inimigo”, que, na realidade, é um companheiro de treino. Quando este “inimigo” ou adversário nos ataca, passa a ser visto como um emissor de estímulos cujo único objetivo é desencadear em nós reações nos níveis físico, emocional e intelectual. No Combate Educativo temos que avaliar e ficar atento: De que tipo são essas reações? São lúcidas? Ou pelo contrário, são instintivas, tensas e dinamizadas por um ego que expressa: “Eu tenho que ser melhor que ele”… Quando deveria expressar: “Eu tenho que ser melhor que eu próprio”! Que referência escolhemos para avaliar a nossa evolução? A qualidade técnica e a eficácia marcial ou o autocontrole físico, emocional e mental? Como praticantes em que ponto de vista nos colocamos? Opção pelas referências internas ou externas, o combate externo ou o combate interno? No combate, a mente é usada de forma peculiar. Preocupações e pensamentos alheios podem aparecer, mas devem ser ignorados em favor de uma concentração contínua nas ações desenvolvidas. Nos exercícios com um parceiro, os lapsos mentais ou o afastamento da mente das necessidades de ataque e defesa, são desencorajados não só pela tentativa de seguir as instruções, mas pelo conhecimento, periodicamente reforçado, de que o ataque do oponente pode causar dor ou mesmo danos físicos. A via ensinada pelos mestres de artes marciais, não pretende conseguir automatismos materiais, mas sim opções ultra-rápidas das quais é melhor que “muito pensamento”, intelectualidade demais, não participe. A partir daí a antecipação espontânea assegura a provável vitória porque o praticante tendo alcançado a tal grau de intuição, fundiu-se completamente com o adversário, com as suas armas, com o mundo. Este campo de batalha interior (a mente humana) é uma escola para a disciplina e educação do nosso ser. Nesta escola as qualidades substituem progressivamente as fraquezas, as insuficiências, os medos, a pobreza de espírito, a falta de iniciativa para a tomada de decisões importantes na vida. É pelos exercícios especificamente direcionados que levamos o corpo a executar, que o educamos e o desenvolvemos. Mas durante a educação do corpo estamos continuamente a aprender. Quando corretamente conduzidos, o exercício destas disciplinas faz fluir à consciência uma sabedoria de milhões de anos de evolução. Na técnica do Combate Educativo busca-se o trabalho físico inteligente e intenso desenvolvendo a auto disciplina e o auto domínio que são os alicerces para a construção das qualidades do caráter. Segundo o doutor Sigmund Freud: “O corpo é a fonte de toda a experiência mental”. No Combate Educativo trabalhamos inicialmente com a educação do ser exterior, para que este se prepare e deseje ser veículo de expressão do ser interior. Depois desta libertação vem o crescimento. Este constitui o trabalho mais complexo e avançado das artes marciais. Quando o praticante se investe integralmente neste processo estas artes transformam-se, deixam de ser marciais, ainda que exteriormente o continuem a ser. É aqui que começa o verdadeiro caminho do guerreiro. Sem paciência, perseverança, dedicação, regularidade, concentração, auto disciplina, capacidade para canalizar o esforço não é possível mergulhar num treino sistemático e repetitivo. Então podemos dizer que este tipo de treino para além dos óbvios resultados físicos, desperta, desenvolve e fixa na personalidade aquelas qualidades. Depois para ser possível utilizar a técnica já assimilada em combate é necessário apresentar auto confiança, criatividade, capacidade para aceitar desafios, respeito, auto domínio que é uma faceta mais profunda da auto disciplina, lucidez mental, calma, firmeza, segurança, capacidade para utilizar e gerir a própria energia, humildade sem ser bonzinho, capacidade para localizar e combater a onipotência e limpidez de caráter durante o combate para assumir uma vitória ou uma derrota. Porque em combate de forma alguma os fins justificam os meios. No Combate Educativo os verdadeiros fins a atingir em combate são a dignidade de meios desencadeados e que deverão ser colocados em jogo. Desta forma, vemos que o exercício do combate, onde o físico é global e profundamente envolvido, quando existe uma razão e principalmente uma emoção saudável a dirigir todo o processo, certamente haverá reflexos muito interessantes na formação e desenvolvimento da personalidade do praticante. No trabalho em Combate Educativo são os reflexos positivos da prática da arte marcial na personalidade que importa conscientizar e desenvolver e que devem ser considerados como o objetivo principal e prioritário da prática, e, portanto como sendo o objetivo em relação ao qual a sua eficiência deve ser avaliada, porque a não ser assim esta prática deixa de ser uma arte transformando-se num mero exercício da animalidade humana, como os pseudocombates de vale-tudo, lamentavelmente tão difundidos hoje em dia. É esta animalidade que o estudo e a prática das artes marciais deve ajudar a conscientizar e a educar. Para isso podemos contar com as ferramentas do Combate Educativo: Arte Marcial e Educação Social Transformadora. *Professor de Tai Chi Chuan na Academia Tai Chi e professor de Educação Física na Rede Pública de Mauá e São Bernardo do Campo. Especialista em Educação Social Transformadora.

FONTE: http://capesp.org.br/c/?p=99

 Referências bibliográficas: - ANDRADE, Dermeval Corrêa de. “Psicologia da Ideologia – o desvendar das aparências”. São Paulo, ed. CBPSM, 2001. - ANDRADE, Dermeval Corrêa de. “Educação Social Transformadora”. São Paulo, ed. Instituto Argumentos – Ciência e Cultura, 2009. - LEE, Bruce. “A arte de expressar o corpo Humano”. São Paulo, ed. Conrad, 2007. - PAYNE, Peter. “Artes marciais, a dimensão espiritual”. Edições delprado. - REID Howard e CROUCHER Michael. “O caminho do guerreiro, o paradoxo das artes marciais”. São Paulo, ed. Cultrix, 2004. - WILSON, William Scott. “O Samurai, a vida de Miyamoto Musashi”. São Paulo, ed. Estação Liberdade, 2006.

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